ERGA OMNES

Espaço para música, entretenimento em geral (Grêmio, Formula 1, cinema) e questões jurídicas (só para atender aos meus anseios de "jurista"). Aqui as (minhas) opiniões contam, e valem ERGA OMNES! "I,m judge and I,m jury and I,m executioner too." (Hetfield)

sábado, 5 de dezembro de 2009

Discos Essenciais – Lamb of God “Wrath” (2009)


Das bandas da new wave of American heavy metal, a que tenho acompanhado mais de perto é Lamb of God. Notei que todas as bandas desse estilo (Slipknot, Mastodon, Trivium, Lamb of God) estão refinando seu som nos discos mais recentes. Assim, se os primeiros discos dessas bandas – tidos como referência no gênero – são, no meu caso, difíceis de ouvir (às vezes, tanto peso e agressividade nas guitarras e nos vocais são duros nos ouvidos), os discos mais recentes estão sendo do meu agrado (por exemplo, Slipknot está adotando vocais mais melódicos e solos de guitarra, sem prejuízo dos riffs destruidores). O Lamb of God já havia baixado um pouco a bola em “Sacrament”, num disco com riffs em formato de música com início, meio e fim, e o resultado foi muito bom (sobre “Sacrament” escrevi há uns meses atrás aqui). Para “Wrath”, no entanto, os caras resolveram simplificar as coisas e alegadamente deixaram de seguir a tendência das várias camadas de guitarras do disco anterior: isso facilita na hora de executar as músicas ao vivo, pois se ouvem apenas os quatro instrumentos e a voz (entretanto, isso não vale para as primeiras duas faixas do disco, conforme adiante). Além disso, ao timbre das guitarras foi dado tratamento mais rústico, sem tanto ganho na distorção, forçando os guitarristas a tocarem com mais força sobre as cordas.

Tenho ouvido bastante “Wrath” há um mês. Definitivamente, não curto os vocais de Randy Blythe; o que vale são as guitarras de Mark Morton e Willie Adler. Os caras utilizam exclusivamente afinação dropped-D, só que de maneira diversa da grande maioria (dentre as quais me incluo) que se vale da afinação para executar riffs com Power chords nas cordas mais graves. Morton e Adler compõem riffs complicados e rápidos, muitos dos quais com saltos enormes que exigem grande abertura da mão esquerda. É nessa técnica que tenho centrado atenção.

Destaco “The Passing”, “In Your Words”, “Set to Fail”, e “Grace” como as melhores faixas de “Wrath”. (a) “The Passing” é a faixa de abertura e se trata de um dedilhado muito caprichado (não é complexo, mas tem alguma sofisticação) em violão de cordas de aço ao qual vão sendo agregadas camadas de acordes de guitarras e temas harmonizados. Ao final segue-se (b) “In Your Words”, que começa tipicamente porrada na orelha. Os riffs dos versos (são dois diferentes) contêm notas inusuais do tipo que só uma boa tablatura para entender o que os guitarristas estão tocando. Há o tradicional interlúdio com riff cheio de pausas e o destaque é os minutos finais, nos quais os guitarristas demonstram uma certa influência de metal progressivo, digamos assim (talvez seja um discurso de marketing positivo quando Morton afirmou que a composição de “Wrath” se inspirou em “Rust in Piece” e “...And Justice For All”).

A melhor faixa do disco é (c) “Set to Fail”, com estrutura bem certinha tal qual “Redneck”, mas tanto quanto uma cacetada de peso e um riff matador e criativo na escolha das notas (a nota final, com vibrato Iommi, alterna a cada compasso). É uma das poucas com solo de guitarra convencional. “Grace” conta com uma bela e complicada introdução com guitarras limpas, uma fazendo acordes e a outra executando padrões em escalas, mais ou menos como em algumas partes de “One” do Metallica e no meio de “Trust” do Megadeth. O trabalho das guitarras é realmente primoroso nessa faixa, e lá pelas tantas a introdução é revisitada, só que dessa vez com apropriada distorção, sendo certo que assim como “The Passing” contém um tema de guitarra muito legal (Morton encaixou um arpejo com sweep picking para agregar dramaticidade nessa parte).

Desde que comecei a ouvir Lamb of God, fiquei com a sensação de que se tratava de uma banda que tocava o som do Pantera, sobretudo pelos grooves e pela interação bateria e guitarras, além dos vocais gritados. Só que o Pantera era uma banda com som muito mais diversificado (o vocalista sabe cantar, por exemplo) e as músicas são mais diretas (“Five Minutes Alone”, “I´m Broken”, dentre outras, têm estrutura familiar de verso-ponte-refrão, e os riffs principais se destacam naturalmente). A contrapartida é que o Pantera tem muitas músicas ruins, parecendo o resultado de jams não inspiradas e desconcentradas (o álbum “Far Beyond Driven” é repleto de faixas desse tipo). O Lamb of God, por sua vez, é do tipo que manda ver um bloco de músicas que a um ouvido desatento poderia parecer que se trata de uma música só. Entretanto, é um heavy metal de boa qualidade. Então, uma simplificação bem rasteira seria dizer que o Lamb of God é o Pantera nos seus melhores momentos (mas não nos seus momentos top ou Premium tipo “Mouth For War”, “Cemetery Gates”, “Cowboys From Hell”, “Five Minutes Alone”, “Becoming”, “I´m Broken”, “War Nerve”, “Drag the Waters”, “Yesterday Don´t Mean Shit”).

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Resenha de CD – Metallica “Don´t Tread On Us” (bootleg - 1992)


Os melhores bootlegs do Metallica são os que contêm registros da turnê do “Black Álbum”. Nessa época Hetfield está na melhor forma vocal, além de se apresentar como perfeito crooner, agitando a galera durante e entre as músicas. A banda como um todo está tocando muito bem, e o timbre das guitarras é excelente. O set list da época ajuda, e nesse CD consta apenas metade do repertório de um show em Washington em 1992, com várias faixas de “Black Álbum”, inclusive “Of Wolf and Man”, além das tradicionais conhecidas “Enter Sandman”, “Sad But True”, “Wherever I May Roam”, “Nothing Else Matters” e “The Unforgiven”. Sobra espaço para “Creeping Death” (de abertura, acho muito legal a primeira interação de Hetfield com a galera no início da faixa, sobrando “f*ck” e “motherf*cker” numa frase só), além de “Harvester of Sorrow” e “Shortest Straw” do “...And Justice for All”.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Resenha de CD – Metallica “Just Another Kraut” (bootleg – 1991)


Trata-se de mais um bootleg que não esclarece a data nem o local do show. Na contracapa é anunciada a formação Hetfield, Ulrich, Hammett e Jason Newsted, e o set list é composto apenas de músicas até o “Master of Puppets”, inclusive, bem como as tradicionais covers no “encore” (no caso, “Last Caress” e “Am I Evil?). No entanto, é possível confirmar que é essa mesma a formação pois Hetfield questiona a plateia - antes de mandar “Last Caress” - se o pessoal comprou o último EP, que na época era o “Garage Days Re-Revisited”. A escolha das músicas foi muito boa: “Creeping Death”, “Master of Puppets”, encerramento com “Battery”, além das duas “baladas”, “Fade to Black” e “Welcome Home (Sanitarium)”. O som das guitarras é muito bom, particularmente acho melhor do que o som com captadores ativos EMG que os caras vêm empregando nesses anos 2000.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Resenha de CD - Metallica "Seek and Destroy" (bootleg, 1991?)


Cheguei atrasado, mas ainda consegui aproveitar parcialmente a venda do acervo de CDs da Espaço Vídeo (perdi, por exemplo, os do Jean Michel Jarre, e outros de jazz fusion tipo Al Di Meola e John McLaughlin). Em regra, todos os discos estão abaixo de 10 pila, e a locadora sabidamente contava com expressiva coleção de importados, bootlegs e mesmo nacionais fora de catálogo. Na medida do possível, dedicarei alguns parágrafos a todos esses discos.

Os bootlegs perderam a importância que tinham com o advento da internet e dos mp3. O Metallica é uma das bandas que mais serviram para esses registros não-autorizados. No caso, "Seek and Destroy" contém apenas 8 faixas e não há esclarecimento no encarte a respeito de qual show é retratado; consta apenas que a formação é James Hetfield, Kirk Hammett, Cliff Burton e Lars Ulrich (ou "Hulricht", conforme aparece na contracapa). O repertório contém exclusivamente músicas dos dois primeiros álbuns, sendo que na música "Seek and Destroy", Hetfield insere "London" nos versos, de maneira que é de se supor que se trata de show em Londres, na turnê de "Ride the Lightning". O som é bom, a presença de Burton é marcante (especialmente em "The Four Horsemen"; durante o refrão ele toca umas frases que não lembro de ter ouvido em versões com Jason Newsted). A voz de Hetfield é quase esganiçada em alguns momentos. E Kirk Hammet se atrapalha em alguns licks mais rápidos. O set list, no entanto, é clássico, a vibração é insuperável, e o timbre das guitarras base é muito bom.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

CDs do Kiss - Parte IV "Destroyer" (1976)


Após o extraordinário e inesperado sucesso com o “Alive!”, o Kiss se viu diante da tarefa de lançar um disco de estúdio que mantivesse a banda em alta junto aos recém adquiridos fãs. Conforme Paul Stanley no “X-Treme Close Up”, as novas músicas deveriam ser mais do que simples canções de rock sobre festas e mulheres: impunha-se o desafio de escrever músicas sobre novas experiências. Aliados ao renomado produtor Bob Ezrin, os caras se desincumbiram com êxito da tarefa de registrar um disco clássico, o “Destroyer” de 1976.

Em setembro de 1993 já estava na fase de querer saber tudo sobre o Kiss, após ouvir com muita dedicação “Animalize”, “Alive III”, “Love Gun” e alguns bootlegs. Para o aniversário, ganhei da minha tia o dinheiro suficiente para comprar o “Destroyer” importado que tinha na Grammy Classic & Rock, quando esta loja ainda ficava na R. Fernando Machado.

Paul Stanley e Gene Simmons não perdem a oportunidade para enfatizar o quão importante e fundamental é/foi este “Destroyer”, sendo certo que eles frequentemente o apontam como melhor disco da banda (conquanto Gene já tenha dito que o seu preferido é “Creatures of the Night”). É possível que a dupla esteja certa, mas entendo despiciendo reproduzir quase todas as faixas no “Alive IV”, aquele com a orquestra da Austrália. Seja como for, “Destroyer” conta com quatro clássicos absolutos da banda e um punhado de boas composições.

Duas das melhores e mais conhecidas faixas do disco são de autoria individual de Paul Stanley:

(a) “Detroit Rock City”, um dos maiores hinos da banda, é a faixa de abertura. Tem ritmo acelerado, e se notabiliza pelos acordes estendidos por vários compassos dos versos, a levada de bateria atípica (e muito legal) em se tratando de Peter Criss, a linha de baixo atípica (e muito legal) em se tratando de Gene Simmons, e o solo de guitarra atípico (e absolutamente fantástico) de Ace Frehley (com harmonização de Paul na segunda parte). Parece-me que em todas essas partes houve “input” de Bob Ezrin. A música representa a ideia de Paul de compor sobre algo a mais do que festas e mulheres: a letra é sobre um fã que se prepara para ir a um show de uma banda, mas no caminho para o evento tem desfecho trágico. Há uma ironia por trás disso. Além disso, a estrutura e a execução são bastante diferentes do que todo o material registrado pelo Kiss nos discos anteriores;

(b) “God of Thunder”, uma das músicas mais identificadas com Gene, faz parte do set list até hoje. É curioso saber que um riff de guitarra tão bom e majestoso, executado bem lentamente, foi inicialmente pensado para ser tocado de forma rápida e “uptempo”; só ouvindo a demo de Paul na “The Box Set” que a banda lançou há uns 4 ou 5 anos para acreditar como seria essa música com o compositor nos vocais. A decisão de atribuí-la a Gene, reduzir o tempo, e adotar uma levada de bateria – digamos – marcial, coube a Bob Ezrin (que também foi o responsável pelos efeitos especiais). Custo a acreditar que o solo de guitarra é de Ace Frehley, pois não é nada típico do guitarrista.

Paul contribuiu, ainda, com “King of the Nighttime World” (em conjunto com compositores de fora da banda - um rock decente, mas nada memorável), “Flaming Youth” (em conjunto com Simmons, Frehley e Ezrin - na qual foram reunidas partes de outras músicas incompletas de Gene, Paul e Ace; acredito que o riff de guitarra que vem depois do refrão foi mal aproveitado... é muito bom e poderia ser o riff principal de alguma outra música que ficaria melhor do que a que prevaleceu no disco; nessas condições apareceu na caixa “The Box Set” como uma demo de Gene, “Mad Dog”), e “Do You Love Me” (uma das obscuras que ganhou espaço no set list da turnê da época e reproduzida no “Alive IV” e no “MTV Unplugged” – acho que essa música é boa, mas recebeu atenção maior que a merecida; em todo o caso, a melhor versão é a que aparece no vídeo “Kiss My Ass”, com a formação original em 1977).

Gene compôs faixas medianas como “Sweet Pain” (até hoje Ace Frehley reclama que seu solo de guitarra foi deletado sem seu consentimento pelo produtor, que optou por um solo de Dick Wagner, da banda do Alice Cooper), e “Great Expectations” (acho legal a letra que trata da relação entre fã e artista).

Gene e Paul compuseram conjuntamente “Shout It Out Loud”, que é outro clássico indiscutível da banda. Muito boa é a divisão entre as partes de vocal principal entre a dupla: Paul inicia os versos sobre uma base com os acordes A e D; Gene é responsável pela parte que seria um pré-chorus, sobre uma base típica de rock´n´roll Chuck Berry. O refrão é bombástico e acho curioso que ao final as notas decrescem, dando um efeito incomum.

Peter Criss foi o responsável pela outra faixa clássica e muito conhecida da banda, a balada “Beth”. Aparentemente trata-se de uma composição do baterista em parceria com integrantes da banda que ele tinha antes de ingressar no Kiss (e que lhe ajudariam bastante no seu disco solo de 1978), e até hoje não tenho esclarecido a razão de terem optado por registrá-la em “Destroyer” (na Wikipédia consta que foi a última adição ao disco e que o foi por insistência do empresário da banda na época, Bill Aucoin). Em todo o caso, Bob Ezrin se encarregou da orquestração, a la George Martin, e a música compôs o lado B do single de “Detroit Rock City”. Paul já referiu que as rádios optaram por tocar “Beth” ao invés de “Detroit Rock City” e o resultado foi um grande sucesso de uma música que em nada lembra o material típico do Kiss. Independentemente disso, a música é muito boa, com melodia bacana, excelentes vocais de Peter, e orquestração adequada.

Se não for o melhor, “Destroyer” é o mais importante álbum de estúdio do Kiss, consolidando o sucesso alcançado com “Alive!” e projetando um futuro de maior banda de rock da época. Pouco depois, no entanto, os caras já estavam em estúdio para gravar outro disco, que eventualmente se chamou “Rock and Roll Over”.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Resenha de CD - Slipknot "All Hope is Gone" (2008)


A partir de "Subliminal Verses Vol. 3" (sobre o qual escrevi resenha aqui) que consegui ouvir mais pacificamente o som do Slipknot. Afinal, nesse disco que os caras começaram a baixar a bola com o som ultraagressivo e abrir espaço para riffs thrash metal e alguns solos, além de momentos com violões e vocais melódicos (e não gritados o tempo todo). Acompanhei com atenção os comentários prévios ao lançamento de "All Hope is Gone" em 2008 e baixei os mp3 para ouvir o resultado final. Não é a mesma coisa ouvir mp3 e ouvir o CD (presto mais atenção no segundo caso), mas o preço cobrado pelo novo disco do Slipknot (quase 40 reais) considero proibitivo, então foi só em Buenos Aires que consegui trazer para casa o CD (lá o preço é aproximadamente de 25 reais, muito mais aceitável).

Agora com as melhores condições pude conferir que os caras compuseram músicas ainda mais perto do meu estilo de heavy metal. Há bastante espaço para os riffs thrash metal, que não são arruinados pela bateria estupidamente agressiva como em algumas músicas dos discos anteriores, o vocal é predominamtenemte melódico, e os guitarristas detonam nos solos.

Depois da faixa de abertura instrumental, a inquietante e desconfortável nos ouvidos ".execute", "Gematria (The Killing Name)" é um belo exemplo dessa nova direção, pois os caras detonam com uns 15 riffs muito legais antes de ingressarem os vocais. Há espaço para solos curtos porém fritados de guitarra. Um riff old school muito bem posicionado encerra essa espetacular música de heavy metal. A seguinte mantém as coisas em ótimo patamar, com acordes e notas dissonantes características da banda; "Sulfur" também tem riffs legais nos versos (Joey Jordison alterna as levadas na bateria), e os vocais típicos de Corey Taylor são muito bons (o cara costuma se dar bem nos refrões).

A melhor música e o melhor riff do álbum provavelmente são de "Psychosocial". Estrutura familiar de verso, ponte e refrão, fica fácil acompanhar. Os solos de guitarra parece que efetivamente vieram para ficar; e não há razão para excluí-los, pois não ocupam muito espaço nas composições e geralmente são bons, sobretudo porque os guitarristas dominam a palhetada alternada estilo John Petrucci-fritador (diferença é que no caso do guitarrista do Dream Theater, os solos nesse estilo tem tomado de 2 a 3min das músicas dos discos mais recentes, como já visto nas resenhas publicadas neste espaço).

O melhor refrão do disco está em "Dead Memories": Taylor é competente nas melodias vocais, e é bom que o cara está deixando cada vez mais dos gritos guturais dos discos anteriores. Não há nada como um disco de heavy metal com músicas bem diversificadas, e "Dead Memories" é do tipo que não é pancadaria do início ao fim: é possível compor músicas melódicas com guitarras afinadas vários tons abaixo.

"Vendetta" começa agressiva ao melhor estilo metal extremo, para depois dar lugar a um riff cadenciado tipo Slayer, com vantagem para o Slipknot por contar com um vocalista que sabe cantar. É mais uma música muito boa desse belo disco, com perfeito balanço entre agressividade e um certo groove. "Butcher´s Hook" é dominado por dissonâncias e talvez um andamento quebrado.

Seguindo a fórmula de alternar faixas rápidas com outras mais tranquilas, segue "Gehenna", que é bem lenta e com tendência fantasmagórica. Há espaço para o baixo aparecer nos versos. Até que vem o refrão perfeito, como é regra nesses discos mais recentes do Slipknot. Possivelmente o melhor solo do disco seja o dessa faixa: não tem fritação, e aparentemente não há muita distorção. O solo é bem construído e climático, casando com o estilo da música. Os riffs matadores e a bateria ultra rápida no bumbo duplo voltam em "This Cold Black". Mais melodia no refrão de "Wherein Lies Continue".

No disco anterior os caras mostraram que também sabiam compor unplugged, e no caso vieram com uma delicada balada, "Snuff", conduzida por acordes em violões e melodia nos vocais, como as bandas modernas de metal costumam fazer, com bastante ênfase nas partes mais dramáticas. Riff complicado e rápido, do tipo que tentei fazer uma época, com hamer-ons e slides bem dinâmicos na 6.ª corda, aparecem na faixa título. Nos versos, mais uma demonstração de metal extremo nas guitarras e na bateria.

As bandas novas de heavy metal estão mudando seu estilo, incorporando solos de guitarra e mais melodia nos vocais, facilitando minha tarefa de ouvi-las. Admito que Slipknot pode estar alienando seus fãs mais ardorosos do período inicial, mas acho que essa evolução é produtiva e inspiradora.

domingo, 29 de novembro de 2009

Grêmio 4x2 Barueri (Brasileirão 2009, 37.ª rodada, Estádio Olímpico, 29.11.2009, 17h)

O Grêmio se despediu do Estádio Olímpico no Brasileirão 2009 com mais uma vitória, consolidando uma campanha invicta e inédita como time mandante nessa fórmula de pontos corridos. O time de Marcelo Rospide não disputa mais nada nesse campeonato, de maneira que o único interesse na partida seria a despedida de Tcheco, que tudo indica será jogador de Mano Menezes no Corinthians em 2010 (e, desde logo, manifesto minha convicção de que o cara vai ser titular e vai brilhar muito dando passes precisos para Ronaldo Nazário fazer os gols do Corinthians na Libertadores 2010).

Chegamos ao Estádio com a bola rolando e já 1x0 para o Grêmio, gol de Douglas Costa. Escolhemos o lado e não demorou para Adílson marcar o 2x0 com um golaço de fora da área. Há vários jogos que Adílson tenta pelo menos um chute de longa distância, e sempre joga a bola na torcida. Dessa vez, botou o pé na forma e concluiu de forma excepcional (ao comemorar ele parecia não acreditar no golaço que havia acabado de fazer).

O Grêmio dominava a partida - embora o Barueri tenha tido um ou dois lances de perigo - e Souza fez jogada individual na grande área para marcar o 3x0.

3.º gol - Souza



O primeiro tempo foi excelente, todos jogando bem e marcando firme. Para o 2.º tempo, Rospide promoveu o ingresso de Tcheco no lugar de Mailson. E o time caiu muito de rendimento. O Grêmio parou de jogar, e o Barueri foi para cima, na medida das suas possibilidades. Num dos ataques, falta dentro da área e o Barueri descontou, com o artilheiro Val Baiano. O cara ainda fez mais um, pouco tempo depois, e o 3x2 estava ameaçador, de certa maneira.

No ataque, o Grêmio criou jogadas muito bonitas, com trocas de passes rápidos e bastante criatividade, só que o gol não saia. Até que no final do jogo, Herrera fez aquela correria na área do Barueri e passou para Maxi Lopez completar o placar.

4.º gol - Maxi Lopez



Próximo jogo, o último, é contra o Flamengo no Maracanã. O Brasileirão 2009 está indefinido entre Flamengo, Inter, Palmeiras e São Paulo. A ironia é que se o Flamengo vencer o Grêmio, e o Inter fazer sua parte e vencer sua última partida, o rival é campeão do Brasileirão 2009. Isso há uma semana precipitou uma discussão - agora mais intensa - sobre a postura do Grêmio diante do Flamengo: entregar o jogo ou não? Os dirigentes já vêm sinalizando com a escalação de reservas, antecipando as férias dos titulares, o que é uma medida aceitável em qualquer circunstância, mas que na atual, com o Inter disputando título e torcendo pelo Grêmio contra o Flamengo, dá muito espaço para palpites dos entendidos. Não é nenhuma novidade esse tipo de coisa (lembro do Inter perder para o Fluminense de Romário em 2003, quando o tricolor carioca "disputava" com o Grêmio a queda para a Segundona, e aqueles pontos acabaram faltando para o Inter chegar à Libertadores do ano seguinte; e o pessoal da rádio lembra o ano passado, no qual o Inter escalou reservas para enfrentar o São Paulo, que se sagrou campeão com o Grêmio de vice). Seja como for, o Grêmio tem a pior campanha fora de casa do Brasileirão 2009 e tudo indica que com titulares ou reservas perderia de qualquer jeito para o Flamengo. Particularmente, não curto essa história de entregar jogo, pois essas coisas voltam. Entretanto, admito que com a rivalidade Grenal há pouco espaço para ética ou moral ou qualquer filosofia. Então, parabéns ao Flamengo, que só assumiu a liderança na penúltima rodada, e tem toda a chance de confirmar o que eu digo desde o ano passado: o que vale é ser líder na última rodada.

GRÊMIO: Victor; Mário Fernandes, Rafael Marques, Réver e Fábio Santos; Adilson, Fábio Rochemback (Herrera), Maylson (Tcheco) e Souza; Maxi López e Douglas Costa (Túlio). Técnico: Marcelo Rospide.

BARUERI: Renê, Xandão, Daniel Marques, Leandro Castan; Éder, Ralf, Everton (Cléverson), Thiago Humberto, Márcio Hahn (Henrique Dias); Flavinho (William) e Val Baiano. Técnico: Luis Carlos Goiano.

Arbitragem: Péricles Bassols Cortez (RJ/asp.Fifa), auxiliado por Alcides Zawaski Pazetto (SC) e Neuza Ines Back (SC). Cartões amarelos: Fábio Santos e Rochemback (Grêmio); Daniel Marques, Ralf e Everton (Barueri). Gols: Douglas Costa, Adilson, Souza e Maxi López (Grêmio); Val Baiano (2x, Barueri).

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Resenha de CD - Megadeth “Endgame” (2009)


Os sites de notícias de heavy metal nos abasteceram regularmente com notícias atualizadas dos passos de Dave Mustaine em direção ao lançamento de um disco novo do Megadeth. A isso contribuiu significativamente a disponibilidade do cara para utilizar a internet como canal para suas inquietações. Então, há mais de um ano que acompanhamos todos os detalhes a respeito do que viria a ser “Endgame”, e desde logo se plantou a ideia de que seria um disco espetacular, que superaria todos os anteriores da discografia da banda, e que a nova formação era a melhor de todas as épocas do Megadeth, e que o novo guitarrista era muito superior ao Marty Friedman. Nas vésperas de lançamento do disco, as notícias eram diárias. E junto com isso, cresceu o interesse dos jornalistas pelas manifestações de Mustaine. Todas as opiniões infames, os comentários ácidos, e as brigas notórias são de conhecimento geral e são antigas: não há nada novo a respeito da saída de Mustaine do Metallica, sua mágoa com Lars Ulrich, o depoimento no vídeo “Some Kinda Monster”, suas desavenças com os guitarristas anteriores do Megadeth (Chris Poland e Jeff Young), a composição de “In My Darkest Hour” no luto da perda de Cliff Burton, dentre outras. Mas por alguma razão todas essas questões foram trazidas de volta e formaram parte do cenário de lançamento de “Endgame”. Parece um jogo: Mustaine não se treme e curte detonar todo mundo e depois fazer discursos pacíficos e glorificantes; os jornalistas, sabedores disso, aproveitam-se – e não há mal nisso se o entrevistado colabora - para colocar na roda todos esses assuntos e compilar declarações bombásticas; Mustaine curte essa repercussão. Sei de tudo isso e, francamente, não dou a mínima (não aumenta nem diminui meu interesse pelo Megadeth, que vem desde 1995), mas a repetição da ladainha é enfadonha. Seria bem melhor tratar apenas do lançamento de “Engdame”, o novo álbum do Megadeth, um disco muito bom que recolocou a banda em merecida evidência ao lado de outras bandas consagradas (Metallica, Slayer) e também das novatas. Mas isso talvez seria simplificar demais as coisas, e deve ser melhor em termos de marketing pessoal e vendas em geral reativar alguma polêmica adormecida.

O que particularmente me incomoda é a disposição de Mustaine, manifestada a partir da remasterização do catálogo do Megadeth, de minimizar a contribuição de Marty Friedman, David Ellefson e Nick Menza (integrantes da melhor, mais conhecida e mais talentosa formação da banda). Desde 1995, quando comecei a acompanhar a banda, olhando para os créditos das músicas, os encartes, vendo os shows e ouvindo as músicas, sempre ficou claro para mim que Dave Mustaine era o manda-chuva do Megadeth, que a banda existia por sua conta e ao seu redor, e que o Megadeth fazia o som que fazia e vendia os discos que vendia em grande parte por causa de Mustaine. Os demais músicos são excelentes e tudo mais, só que jamais pensei que houvesse contestação a predominância de Mustaine. Pois o cara resolveu dizer com todas as letras o que era óbvio nas entrevistas e nos encartes dos CDs remasterizados, com dispensáveis comentários irônicos, e sugerindo que a mudança de som a partir de “Youthanasia” (sobre esse disco essencial escrevi aqui) – ápice foi com “Risk” – devia ser imputada aos seus “comandados”, especialmente Friedman, sem prejuízo, é claro, de sua obstinação em fazer um disco “n.º 1” no Top 200. Acho isso gratuito (não leva a nada) e desnecessário (não tem razão de ser). Dave não precisava escancarar certas coisas e diminuir a importância de certas pessoas para enfatizar ainda mais o que todo mundo já sabe: Dave Mustaine é o cara.

Afinal, se há certo consenso de que Mustaine é um grande mala do heavy metal (tanto quanto Lars Ulrich), não há dúvidas, por outro lado, que se trata do melhor guitarrista de heavy metal à exceção de Tony Iommi (James Hetfield estaria no mesmo patamar, para não ser obrigado a dizer que um é melhor que o outro). “Como ele consegue tocar riffs tão complicados na guitarra e cantar ao mesmo tempo?”. Ele diz que pratica bastante em casa, e talvez a receita seja essa mesma. Alguns dos riffs do Megadeth, se não definitivos como muitos do Black Sabbath, são magníficos e únicos. “Que outra banda toca riffs como o Megadeth?”. Fato é que o Megadeth é uma das minhas bandas favoritas (só não comprei, ainda, o primeiro disco) e estava acreditando mesmo que “Endgame” seria um disco espetacular.

Mustaine defendeu nas várias entrevistas divulgadas nos sites especializados, dentre outras, as seguintes teses: (a) “Endgame” é melhor que “Death Magnetic” (clique aqui para ler sobre o disco do Metallica); (b) “Engame” é o melhor desde “Rust in Piece”, e possivelmente melhor que este; (c) Chris Brodderick é melhor que Marty Friedman; logo (d) é despiciendo cogitar da reunião da formação de “Rust in Piece” se a atual é muito melhor e é capaz de fazer discos melhores. Afora essa última, que nem me passou pela cabeça (embora não seja má ideia daqui a alguns anos, numa “Reunion Tour” – agora não é o momento, ainda), discordo integralmente, conforme segue:

(a) “Endgame” é um bom disco do Megadeth. Voltaram os riffs – alguns são muito bons – e alguns momentos são bem dinâmicos, como se espera do Megadeth. Mas Mustaine gerou uma expectativa tão grande que ficou difícil de atender. E só por “All Nightmare Long” e “Broken, Beat and Scarred”, “Death Magnetic” é melhor que “Endgame”.

(b) “Endgame” é um disco muito bom do Megadeth, mas não supera “Rust in Piece”, nem “Countdown to Extinction” (este é mais um disco essencial, sobre o qual escrevi aqui). Possivelmente seja melhor do que “Youthanasia” (apesar de não contar com músicas tão boas quanto “Train of Consequences” e “Reckoning Day”). Acredito que seja mais do estilo dos discos mais recentes, como “United Abominations”. Por mais que diga o contrário, Mustaine mudou seu método de composição, tanto quanto outras bandas o fizeram (tipo o Dream Theater) para agregar refrões cativantes para a galera nova cantar. Essas bandas com mais de 20 anos de estrada contam com fãs mais novos, que cresceram ouvindo bandas de nu metal. Então, se o Linkin Park faz refrões gritados e marcantes, o lance é incorporar isso. Mustaine não grita nos refrões como LaBrie (ver “The Count of Tuscany” do último disco do Dream Theater, cuja resenha segue aqui), mas se esforça para inserir refrões melódicos em todas as músicas. E aí lembro de músicas como “Holy Wars” que não têm refrão, e de outras como “Symphony of Destruction”, “Train of Consequences”, “Tornado of Souls”, “Skin O´My Teeth” que têm refrões muito legais, marcantes, e não óbvios. Além disso, entendo que faltam riffs contundentes de bom, como o de “Kick the Chair”, que considero o último riff espetacular de Mustaine.

(c) Chris Brodderick fez um excelente trabalho em “Endgame”. Aqui Mustaine não exagerou quando falou demoradamente sobre a técnica do guitarrista novato. O cara é fluente nas técnicas mais importantes de guitarra – alguns arpejos com sweep picking são realmente invejáveis e de tirar o fôlego. Mas é a tal da história de que não adianta uma técnica imaculada se falta “atitude”. Particularmente, acho os solos de Friedman mais memoráveis, como em “Hangar 18”, “Tornado of Souls”, “Symphony of Destruction” e “Train of Consequences”. Há uma identidade nos solos de Friedman, aliada à dificuldade técnica (o cara tem um jeito bem peculiar de segurar a palheta). Brodderick pode ter técnica mais refinada, entretanto não supera o “carisma” de Friedman.

O disco inicia com uma faixa instrumental, exatamente como “So Far, So Good, So What”. O motivo é bem simples (A-C-G-F), sobre o qual são executados uma série de solos de Mustaine e Brodderick. Se o primeiro é mais blueseiro pelas pentatônicas, o segundo já manda ver nos arpejos com sweep picking e na eficiente palhetada alternada. “Dialetic Chaos” serve apenas como uma introdução para coisas muito melhores que virão no decorrer da audição de “Endgame”. “This Day We Fight” é a primeira música, propriamente dita, e já começa com os versos. O riff sobre o qual Dave canta é do tipo complicado que só ele consegue compor, além de tocar e cantar simultaneamente. A estrutura da faixa é mais familiar da época de “So Far (...)” e “Peace Sells (...)”. Trata-se de uma música muito boa, com andamento bem acelerado, como convém no início de um disco de heavy metal. Há alguns solos muito bons de Brodderick.

A audição parece promissora, mas faixas como “44 Minutes” me fazem lembrar o clima dos discos mais recentes, como “United Abominations”. Os versos são bem batidos, com as guitarras tocando uns acordes acentuados e com pausas. O refrão é bem construído nos vocais; as guitarras, porém, contam com camadas excessivas (geralmente não funcionam tantas coisas distraindo a atenção ao mesmo tempo). No final sobre um riff simples de heavy metal, Chris Brodderick arrebenta com uma sequência de arpejos bem rápidos, impecavelmente executados. O cara começa a mostrar que manda bem na guitarra.

“1.320” começa ao estilo de músicas do “So Far (...)” e mesmo de “Rust in Piece” ("Poison Was the Cure"), com um riff utilizando a 5.ª corda solta, e hammer-nos e pull-offs rapidíssimos. Há diferentes bases para os versos, um longo chorus, mais solos e voltam os versos. Há espaço para solos ainda mais incandescentes, sobre uma base que varia sobre dois motivos similares, para marcar a mudança de guitarrista simplesmente. Aqui Mustaine poderia ter sofisticado um pouco mais, como “Hangar 18”. De qualquer maneira, achei muito legal a faixa terminar com um arpejo de Broderick.

“Bite the Hand” é o tipo de música que Mustaine faz com as mãos atadas nas costas, sobretudo pelo riff quase old school durante os versos (seria o riff de "Skin O´My Teeth" invertido). Nos solos é tão old school que lembra Iron Maiden - o riff da base tem as guitarras harmonizadas. "Bodies" é outra que não deve ter dado trabalho para Mustaine compô-la, dada a estrutura totalmente previsível; as coisas só melhoram quando a música dá uma acelerada no final.

A faixa-título é o melhor exemplo para demonstrar o quão é bom o timbre das guitarras nesse álbum, sobretudo nos momentos em que os guitarristas alternam palhetadas com e sem as cordas abafadas. A música tem várias partes boas, e o refrão é bem legal, com uma cavalgada discreta ao estilo Maiden.

Em "The Hardest Part of Letting Go: Sealed With a Kiss", há um dedilhado com acompanhamento orquestrado pomposo no início, sobre o qual Mustaine tenta cantar o mais melódico possível, alcançando até uns graves que ele provavelmente não consegue repetir ao vivo. O que vem em seguida, com as guitarras distorcidas, também não impressiona, e a música é uma das mais fracas do álbum.

Segue-se uma faixa bem rápida, "Headcrusher", que é o primeiro single. Achei bom o riff de abertura, mas entendo que ficou em segundo plano devido ao destaque de um tema despiciendo de guitarra. O riff dos versos é simples e eficiente, e o riff do refrão é simples e uma paulada na orelha: apenas as notas E e F# palhetadas rapidamente num padrão sincopado. A melhor parte de "How the Story Ends", que tem um riff com praticamente a mesma levada de "Kill the King" (do Megadeth, não do Rainbow), é o refrão: é apenas uma sequência de acordes, e o destaque é todo da melodia dos vocais. A base do solo é praticamente igual a alguma música do "Coundown to Extinction", e serve de palco para Brodderick exibir mais uma vez sua proficiência nos arpejos de várias cordas com sweep picking.

"The Right to Go Insane" é a única na qual o baixo se destaca de alguma forma, pois inicia a faixa. O riff dos versos é do tipo locomotiva que Mustaine sabe fazer muito bem com as cordas abafadas. No entanto, parece que o cara estava com preguiça de encaixar os vocais nos versos (o andamento lembra alguma coisa de "Cryptic Writings"), e ainda andou pelo caminho mais fácil na hora de compor o refrão.


O disco todo foi registrado na afinação padrão, e a esse respeito a melhor revista de guitarra do mundo, não por acaso chamada Guitar World, edição de dezembro/2009, conseguiu, dentre outras, um precioso depoimento de Dave Mustaine: "GW: A trademark of your guitar sound is the fact that you almost play in standard tuning. You don´t drop-tune, which is de rigueur for metal acts these days. MUSTAINE: I feel that the guitar needs to be tuned to A440 so you can get the correct response out of it. And I believe that if you play some of those low-tuned songs on a guitar in standard tuning, you´ll hear that a lot of them don´t have good melodies. It becomes almost atonal and percussive. (...)". A mim parece que Mustaine está totalmente correto; por outro lado, há casos em que é muito bom um riff "atonal and percussive", e talvez o ruim seja basear-se exclusivamente nisso (o bom é variar nos riffs).

Além disso, Mustaine revela que pretende registrar mais um disco de estúdio, e depois dedicar-se a outras coisas com música, especialmente se não puder headbang nos palcos, como conduzir clínicas de heavy metal. O jogo ainda não terminou, portanto.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Resenha de CD - Alice in Chains “Black Gives Way to Blue” (2009)


Por si só, já é um grande feito uma banda que sumiu do mapa por tanto tempo reaparecer com disco novo bem recebido por público e crítica, sinalizando duradoura retomada de atividades. Sabe-se que o Alice in Chains apareceu para o grande público na época do grunge. Na época repudiei todas as bandas do gênero, mas agora percebo – como tantos outros – que o Alice in Chains era, bem vistas as coisas, uma banda de metal de Seattle, capitaneada por um talentoso guitarrista e um carismático vocalista, acompanhados por competentes baixista e baterista. A banda se destacou nas vendas pois se mostrou capaz de compor riffs bons de heavy metal e, ainda, músicas acústicas bacanas. No início dos anos 2000, no entanto, longe dos holofotes, os caras sucumbiram aos excessos da fama, e durante um período de inatividade, noticiou-se a perda do vocalista Layne Staley. Desde então não se soube mais do Alice in Chains, de maneira que era intuitiva a dissolução da banda. Mais recentemente, os caras se reuniram para shows esporádicos e surgiu a oportunidade de voltar para a gravação de um disco de estúdio, com um vocalista/guitarrista (William DuVall, que se apresenta com uma Gibson Les Paul Black Beauty muito legal). Jerry Cantrell, o líder da banda, prometeu um disco bem pesado, e o resultado é “Black Gives Way to Blue”. De fato, o álbum é pesado. Além disso, as músicas são lentas, predominando um andamento cadenciado digamos assim. Comparando-se com discos como “Facelift”, que começa com “We Die Young”, talvez tenha faltado uma ou duas músicas mais agitadas. É inegável, entretanto, que há coesão nesse disco, e que se trata de um disco de heavy metal. E é o tanto quanto basta, por ora. “All Secrets Known” abre o disco e tem um peso solene desde o início. A introdução hipnótica na guitarra com um dedilhado cheio de distorção acompanha a faixa inteira, abrindo espaço para refrão e uma ponte mais adiante. Os vocais são assertivos e cantados no arrasto da música. Há solo de guitarra, o que sempre é bem vindo, considerando o cenário atual. Cantrell é econômico nos riffs, mas é do tipo de guitarrista que compõe riffs inteligentes e não óbvios, e isso é um grande talento. O riff de “Check My Brain” é desse jeito, com uns bends não usuais na 6.ª corda, o que exige bastante treino para não desafinar (a música é excelente, com refrão radiofônico e tudo mais), assim como "Acid Bubble", só que neste último caso o riff é mais insidioso, pois aparece apenas depois de decorridos 3min de música, 3min esses que passam bem devagar pois o andamento é do tipo "doom" ou arrastado. "Last of My Kind" começa com um riff bem tradicional e fácil; no refrão as coisas ficam mais agressivas para melhor com um riff simples de heavy metal (a 6.ª corda solta com uns power chords bem acentuados). A base do solo tem um riff bom. "Your Decision" é a primeira das comoventes músicas conduzidas por violões do disco (e guitarras com som limpo - alguma distorção discreta no decorrer da faixa), e se destaca pela melodia dos vocais. Do mesmo tipo, mas com um tocante solo de guitarra é "When the Sun Rose Again". A que mais me lembra o som antigo do Alice in Chains é "Lookin in View", pela execução do riff principal apenas pelo baixo e o bumbo da bateria durante os versos, ficando a guitarra responsável pelos barulhos estranhos. O refrão é muito bom, com um riff excelente na parte "ainhãaaa" que vai ficando bem contudente nas repetições ("That´s why you never tell me"). "Lesson Learned" tem um riff bem simples, mas é legal o jeito que ele acompanha os versos. "Take Her Out" é do tipo cuidadosamente construída, com as partes levando uma a outra logicamente, e um refrão bem melódico e de fácil assimilação. O álbum finaliza com duas baladas, "Private Hell" (mais uma vez os vocais se sobressaem) e a faixa-título; nesta última, Elton John faz discreta participação especial no piano. Não lembro se da Saraiva ou da Cultura, comprei da que fazia o menor preço, e tenho ouvido com interesse.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

CDs do Kiss - Parte III "Love Gun " (1977)


Em 1977 o Kiss experimentava o auge da fama de maior banda de rock, iniciado com “Alive!” e consolidado com “Destroyer”, passando por um disco sólido “Rock and Roll Over”. O Kiss Army já era ativo, bem como as centenas de itens comercializados envolvendo a banda (lancheiras, borrachas com o formato das máscaras, jogos diversos, maquiagem, etc.). Para coroar esse momento, a banda lançou um disco excelente, com composições boas e consistentes do início ao fim. A turnê subsequente foi muito bem sucedida, e resultou no segundo volume da série “Alive”. Por outro lado, o disco pode ser considerado como o início do fim, pois a partir daí as desavenças internas não mais seriam pacificamente resolvidas até que, eventualmente, parte dos integrantes da formação original deixassem a banda.

Depois de ouvir “Animalize”, “Alive III”, e o bootleg “Dr. Love´s House 2” (disponível numa locadora perto do Colégio Sévigné, onde atualmente se localiza a Boca do Disco, na Mal. Floriano), adquiri numa Multisom do Iguatemi (a mais perto de onde ficava a extinta Banana Records) um CD importado do Kiss por uns 30 pila: os disponíveis eram “Dynasty” (melhor capa), “Hot in the Shade” (só conhecia “Forever”) e “Love Gun”, e escolhi este último exclusivamente pelos comentários favoráveis das revistas dedicadas ao Kiss que comprei na época (agosto/setembro de 1993) pois desconhecia todas as faixas (como curiosidade, o CD que adquiri veio com um encarte sobressalente).

Desde logo curti bastante a faixa de abertura, “I Stole Your Love”, pois gosto de músicas com bons riffs de guitarra. O próprio Paul Stanley admitiu que seria uma homenagem talvez inconsciente a “Burn” do Deep Purple. É a melhor do disco e ainda fica muito bem nos repertórios ao vivo atualmente. É das minhas favoritas até hoje.

É curioso como “Love Gun” é um dos poucos discos nos quais Gene Simmons compôs mais faixas do que Paul Stanley. O baixista mandou “Christine Sixteen” (clássica muito boa), “Got Love For Sale” (excelente, bem obscura na discografia da banda – acho muito bom o riff com a nota pedal em A), “Almost Human” (é outra obscura, mas algumas bandas já fizeram cover – tem um clima meio viajante pelos flangers e phasers, e me lembra um pouco Hendrix) e “Plaster Caster” (muito boa, sobre uma groupie, e até hoje me surpreendo positivamente pelo fato da banda ter tocado essa em versão acústica no disco “MTV Unplugged” – talvez tenha sido a última vez que eles me surpreenderam musicalmente). Simmons divulgou oportunamente que utilizou a dupla Eddie e Alex Van Halen para as demos de “Got Love For Sale” e “Christine Sixteen” (diz-se que Ace Frehley reproduziu fielmente o solo de guitarra de Eddie Van Halen nesta última).

Stanley, por sua vez, compôs a música que até hoje o cara admite como sendo uma de suas favoritas do repertório da banda: “Love Gun”, a faixa-título. Particularmente, não é a melhor da banda, nem de Paul, mas entendo o porquê do cara se orgulhar de tê-la composto integralmente (inclusive a levada da bateria, com exceção do solo de guitarra). De fato, é um clássico da banda que – acredito - integrou o set list de todas as turnês desde então. Alguém já apontou que “Tomorrow and Tonight” foi uma tentativa para criar um hino como “Rock and Roll All Night”, e de fato a música tem um bom refrão, mas é um rock genérico. A última faixa é um cover cantado por Stanley: “And Then She Kissed Me”. Já li resenhas desfavoráveis dessa faixa; particularmente, acho bem legal e oportuna.

“Love Gun”, o disco, se notabiliza por contar com a primeira contribuição vocal de Ace Frehley num disco do Kiss. O guitarrista já havia composto algumas músicas, mas por falta de convicção acabava deixando outro cantar em seu lugar (“Parasite” é o caso mais notório). Por alguma razão isso mudou em 1977, e Ace resolveu cantar “Shock Me”, e acredito que essa é a composição que melhor define o guitarrista, pois além do vocal competente, o cara mandou um solo de guitarra magnífico. Ace costuma dizer que seu estilo é uma mistura de Page, Clapton, Hendrix, Townsend e Richards, e todas essas influências aparecem no solo de “Shock Me”. Todos os licks são bem executados e encaixam perfeitamente na música. Não por acaso se diz que Ace Frehley é um dos maiores exemplos de guitarrista que consegue compor solos que são tão identificáveis quanto os refrões das músicas (já li uma coluna do Marty Friedman para a Guitar World em 1994 sobre isso – o ex-guitarrista do Megadeth comentou que se ouvíssemos só o solo de Ace já identificaríamos a música respectiva, o que é inteiramente verdade).

Desde o primeiro álbum que Peter Criss canta pelo menos uma faixa, e no caso de “Love Gun” o baterista contribuiu com “Hooligan”, um rock bem ao seu estilo de então.

Um disco de rock com composições clássicas (a faixa-título, “I Stole Your Love”, “Christine Sixteen”) ou muito boas (todas as demais) fazem de “Love Gun” um dos melhores da fase mascarada do Kiss, e o último gravado pelo quarteto da formação original. A banda embarcou numa turnê bem-sucedida, lançou mais um disco ao vivo (“Alive II”, com algumas músicas novas de estúdio) e, mais importante, cedeu aos vícios de poder e fama: cada um reivindicava para si o sucesso da banda, o que acarretou o lançamento simultâneo de quatro discos solo. Peter Criss não mais participou das gravações de bateria, e todos esses fatos culminaram com a saída do baterista em 1980 e de Ace Frehley em 1982.